2 - Hitler segundo o marxismo

Não deixa de parecer estranho que até os nossos dias o pensamento marxista foi incapaz de produzir um trabalho clássico sobre o seu principal e formidável inimigo, aquele que desejava exterminá-lo. A literatura marxista não tem sido feliz em suas análises, demonstrando uma impotência teórica abrumadora: repetem ad nauseam os conhecidos ditos de ter sido Hitler o representante máximo da "ditadura do capital financeiro" ou o "tirano do capitalismo monopolista", terminando por reduzir o nazismo a um epifenômeno da economia, não apresentando nenhuma razão mais contundente para as massas germânicas terem aderido às suas propostas.

Por outro lado, essa impotência é reveladora porque de sua derrota nos anos 1920 e 1930 frente ao nazi- fascismo. Um esforço recente foi aquele realizado pelo neomarxista Nicos Poulantzas (Fascisme et Dictadure), mas que deixou muito a desejar na medida em que encontrou muito mais preso à metodologia estruturalista do que ao maior legado de Marx, que foi a História.

O caminho prussiano

Enquanto os jacobinos e girondinos franceses destroçavam as amarras do Ancien Regime por meio de um processo revolucionário que sepultou a nobreza feudal, aos intelectuais alemães coube realizar uma "revolução pelo espírito", que produziu apenas excelentes tratados filosóficos. Não está longe da verdade a imagem de terem os pensadores alemães se debruçado sobre as margens orientais do Reno e assistido embevecidos às façanhas irreverentes de seus vizinhos.

Alguns mantiveram esperanças que o "espírito da razão" atravessasse as braçadas o rio e emancipasse a nação alemã. Mas não foi o "espírito" e sim o Grande Exército napoleônico quem se apossou da nação alemã. Não foram os argumentos iluministas os mais convincentes, mas sim a artilharia francesa. Assim, na Alemanha, o liberalismo vinculou-se inarredavelmente ao exercito de ocupação - a algo estranho a ser rejeitado pelos "verdadeiros alemães". E quando se deu o desabamento do império napoleônico, a vitória coube às forças conservadoras feudais da Santa Aliança, coligação tradicionalista e aristocrática que continuou a gozar de prestigio junto à população alemã. Na medida em que se considerava impotente para derrubar o poderoso Estado militar-feudal prussiano, sediado em Berlim, a burguesia alemã resignou-se, escolhendo a capitulação. Ainda em 1848/9, na chamada Revolta dos Poetas, tentou inutilmente impor suas diretrizes de cunho liberal, mas fracassou. O medo que o populacho pudesse avançar politicamente refreou-lhe o desejo de emancipação.

Deste modo, frustrada a solução da unificação nacional pela via liberal, só restou ao capitão da progressista região do Reno seguir o junker, o guerreiro feudal e comandante das armas do exército prussiano. O resultado disso foi a ascensão do II Reich, fundado por Otto von Bismarck, o estadista prusssiano que consolidou o poder autoritário sobre o restante da Alemanha às custas de guerras.

A burguesia alemã submete-se ao Estado Feudal

Bem antes, o filósofo Hegel havia traçado o perfil desse peculiar acordo entre a burguesia alemã e o aparelho feudal-prussiano. "O Estado", disse ele "é o espírito como vontade substancial revelada clara para si mesma, que se conhece e se pensa e realiza o que sabe e porque (...) enquanto o individuo obtém sua liberdade substancial da sua atividade".

Quer dizer, a liberdade não se dá como ocorreu entre a burguesia inglesa e francesa, isto é contra o Estado, limitando-lhe o poder e a autoridade , mas sim por meio dele e sob a atenta proteção dele. Friedrich Engels, o companheiro de Karl Marx, furibundo sintetizou tal situação de conformismo afirmando que a gente de classe média alemã, estreita de pensamento, deixara a aristocracia prussiana no leme do Estado conquanto pudesse ganhar dinheiro.

Portanto, todo o roteiro de transformações por que a Alemanha passou no século 19 (basicamente sua unificação nacional e acelerada industrialização) se deu dentro dos "quadros de ferro" do estado feudal-militar com seu culto à disciplina e à ordem e com escassa tolerância para com a dissidência política, consagrando o dito "Gegen demokraen helfen nur soldaten", contra democratas só adianta soldados.

Esta contradição histórica e social, onde encontramos os meios de produção nas mãos de burgueses e as instituições políticas ocupadas pela casta militar dos junker, terminou mais tarde por conduzir o país à camisa-de-força do nacional-socialismo. A dolorosa gravidez da burguesia alemã não produziu um nascituro democrático, e sim um tirano expressionista.

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