Marinheiros exigem tratamento justo

Revolta da Chibata - 100 anos

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
 
Há cem anos, em 22 de novembro de 1910, um grupo de marinheiros negros se rebelou contra os castigos físicos aplicados na Marinha brasileira. Eles assumiram o controle de quatro navios de guerra ancorados na baía de Guanabara e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro, então capital do país. O motim durou seis dias.

Direto ao ponto: Ficha-resumo
 
A Revolta da Chibata, como ficou conhecida a insurreição, foi liderada por João Cândido Felisberto, um marinheiro de 30 anos, negro e semianalfabeto. Ele e os demais revoltosos foram perseguidos, presos e, em sua maioria, mortos nos anos seguintes à tomada dos encouraçados. Até hoje, o episódio é um dos mais polêmicos da história da República Velha (1889-1930). João Cândido, que morreu pobre e esquecido em 1969, tornou-se um dos mais importantes heróis negros do Brasil, ao lado de Zumbi dos Palmares. Mas a legitimidade dos feitos do Almirante Negro foi contestada pela Marinha, e a anistia póstuma aos integrantes do movimento só foi concedida em 2008.

Tensão racial
 
No começo do século 20, o Brasil era um país a caminho da modernidade. A capital, o Rio de Janeiro, tinha 870 mil habitantes e passava por uma reforma urbana promovida pelo prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913). O sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) iniciava a vacinação em massa contra a varíola, fato que desencadeou a Revolta da Vacina, em 1904.

No país, ocorria a transição do regime escravocrata para o capitalismo industrial, e do poder monárquico para a República. Nas Forças Armadas, depois de um período de decadência que sucedeu a Guerra do Paraguai (1864-1870), a Marinha decidiu renovar a frota, comprando 14 navios dos mais modernos fabricados à época, na Inglaterra.

Porém, no Brasil não havia mão de obra qualificada o suficiente para operar as embarcações. E, a bordo dos navios, imperava ainda o rigoroso código disciplinar da monarquia. Os castigos corporais haviam sido banidos com a Proclamação da República, em 1889, mas a pressão dos oficiais fez com que fossem reincorporados à rotina militar no ano seguinte.

Assim, a vida militar reproduzia as tensões da divisão racial da sociedade brasileira: de um lado os marinheiros negros, mal pagos e sem instrução, e de outro, os oficiais brancos, vindos da elite, com o agravante de os marujos serem submetidos ao açoite, mesmo tendo a escravidão sido abolida em 1888.

Nessas condições, João Cândido e seus colegas começaram a tramar o motim em 1909, quando estavam na Inglaterra. Lá, eles acompanharam a construção do encouraçado Minas Gerais - o mais moderno da esquadra brasileira - num estaleiro britânico. Com isso, aprenderam a manobrá-lo. E também foram influenciados pelos movimentos europeus de revoltas militares. A mais famosa foi a dos marinheiros russos no encouraçado Potemkin, em 1905 (ver filme indicado abaixo). O plano era assumir o controle dos navios dez dias depois da posse do presidente Hermes da Fonseca, em 15 de novembro de 1910. Mas um acontecimento precipitou o movimento.

Cachaça
 


Na madrugada de 21 de novembro, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, o "Baiano", foi condenado a receber 250 chibatadas no Minas Gerais (cem mais do que o normal). O açoite aconteceu em frente à tropa perfilada, ao som de tambores. A punição foi aplicada porque o marujo havia ferido, com uma navalha, um cabo que o havia delatado por entrar com dois litros de cachaça a bordo. No dia 22, indignados com o castigo, 2.379 marinheiros se amotinaram e tomaram os navios Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro, que estavam ancorados na baía de Guanabara. Seis oficiais foram mortos pela tripulação, incluindo o comandante do Minas Gerais. Em seguida, os marujos apontaram 80 canhões para a capital e exigiram melhores condições de trabalho, fim dos castigos e anistia aos revoltosos. Um dos canhões chegou a disparar e atingir um cortiço, matando duas crianças. O clima de guerra deixou a população carioca em pânico. Pressionado pelo povo e por políticos da oposição, o governo cedeu. No dia 27 de novembro, o presidente Hermes da Fonseca e os parlamentares assinaram a anistia, pondo fim ao movimento. O governo também prometeu acabar com os açoites.

Envenenados

Na prática, contudo, a Marinha começou a perseguir todos os envolvidos no levante. Dois dias depois, os marinheiros começaram a ser expulsos por decreto, sob acusação de indisciplina, ou presos, assim que desembarcavam. Muitos foram torturados e fuzilados.

Os marujos presos, entre eles João Cândido, foram levados para a Fortaleza de São José da Ilha das Cobras. No mesmo presídio, em dezembro, houve um levante do Batalhão Naval, rapidamente sufocado pelos militares. Outros 97 marujos foram levados para trabalhos forçados em seringais na Amazônia. No meio da viagem, sete deles foram fuzilados, acusados de conspiração. No presídio naval, João Cândido e outros 17 marinheiros foram encarcerados em uma cela sem ventilação. Na véspera do Natal de 1910, os carcereiros jogaram cal virgem no calabouço. Um dia depois, 16 haviam morrido envenenados. Somente o líder da revolta e outro preso sobreviveram. Em 1911, João Cândido foi internado no Hospital dos Alienados (o hospício da época). No ano seguinte, ele foi julgado e absolvido pela Justiça. Expulso da Marinha, morreu como vendedor de peixes. Durante o Estado Novo (1937-1945) e o regime militar (1964-1985), a Revolta da Chibata era considerada assunto proibido pelo governo. Aos poucos, no entanto, o nome de João Cândido virou símbolo de lutas políticas, inspirando até um samba-protesto dos anos 1970, "O Mestre-Sala dos Mares", composto por João Bosco e Aldir Blanc (ver link abaixo).

O Almirante Negro também ganhou estátua na Praça XV, no centro do Rio, e seu nome batizou um petroleiro. A anistia póstuma aos revoltosos foi assinada em 2008 pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva. A família de João Cândido luta até hoje por uma indenização do Estado. 

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