4- Hitler: O antissemitismo

Se a difusão das ideias racistas poderia parecer uma novidade no contexto cultural europeu, o mesmo não se pode dizer em relação ao anti-semitismo (***), cujas origens datam no mínimo do tempo das Cruzadas. Deve-se observar, no entanto, uma radical modificação nos argumentos dos antissemitas. Até o século 18, o preconceito contra os judeus se fundamentava em razões de ordem religiosa ou teológica.

No século 19, com o enorme desenvolvimento das ciências naturais e positivas, os argumentos cristãos caíram em desuso. O moderno antissemitismo então vai se abeberar na corrente naturalista, dando o surgimento de um anti-semitismo secular que retira seus argumentos da fisiologia, da biologia, da genética e da bacteorologia.

A partir de então a literatura reacionária é pródiga na utilização de termos como "vírus judaico", "bactérias nocivas", aos quais contrapõe a política da eugenia, da preservação da raça branca ariana. Mas o anti-semitismo redobra suas forças não só pelos argumentos obtidos junto aos naturalistas.

O século 19, é o século do nacionalismo burguês, perante o qual o judeu foi visto como um elemento não assimilável, um cosmopolita incorrigível, um apátrida incapaz de aderir ou compreender o conceito de nação. Fato explicitado pelo famoso Caso Dreyfuss, ocorrido na França no final daquele século.

O mesmo tema, da impossibilidade de adaptação do judeu a uma outra cultura, foi abordado pelo famoso historiador Heinrich Treitchke, símbolo maior da Alemanha "respeitável", num ensaio de grandes repercussões, publicado em 1879. Um dos seus discípulos foi o professor Hans Gunther, autor da Pequena Etnologia do Povo Alemão, aparecido em 1929, no qual ele celebrou o Ariano Nórdico como a vanguarda da civilização, condenando com veemência a "introdução de sangue estrangeiro" na Europa.

Além disso, o anti-semitismo tomou impulso, segundo o historiador Robert Seltzer, por ser uma reação ao sucesso dos judeus emancipados em meio à sociedade europeia do século 19, situação que passou a causar mais temor ainda do que a imagem do antigo judeu de gueto que somente de vez em quando era assolado por violências e pogroms.

Por fim, sob o ponto de vista da direita feudal, a ascensão social dos judeus é a prova inconteste da decadência ocidental da sociedade capitalista, responsável pela extirpação dos valores aristocráticos.

(***) A expressão anti-semita ou anti-semitismo foi cunhada em 1873 por Wilhelm Marr, um escritor alemão, autor de O caminho da vitória do Germanismo sobre o Judaísmo, que teve larga difusão por todo o país.

Facilmente verifica-se que a formação do pensamento político de Hitler deitava raízes firmes no passado recente europeu, nas novas doutrinas anti-democráticas e anti-socialistas que não paravam de emergir num cenário de rivalidade intensa entre as potências e de expansão do domínio do homem branco sobre o restante do planeta, doutrinas estas que eram aceitas e difundidas por intelectuais respeitáveis.

Natural que depois da Segunda Guerra desejassem apresentá-lo como uma aberração, uma exceção, como se não houvesse racismo nos Estados Unidos, ou que a política de eugenia (a seleção dos racialmente melhores) fosse praticada somente na Alemanha Nazista, quando ela era praxe em muitos países europeus (na Suíça e na Escandinávia) e mesmo em 25 estados da América do Norte. O que não exime em nenhum momento da responsabilidade de Hitler tê-las adotado como política do estado alemão com terríveis consequências para a humanidade.

Bibliografia
Fischer, Klaus P.- Nazi Germany: A New History (1995);
Friedlander, Saul - Nazi Germany and the Jews (1997;
Kershaw, Yan - Hitler, 1889-1933, Hubris,(2001);
Maltitz, Horst von - The Evolution of Hitler's Germany (1973);
Milfull, John (editor) - Why Germany: National Socialist Anti-Semitism and the European Context (1993);
Seltzer, Robert M. Jewish People, Jewish Thought - The Jewish Experience in History (1980);
Tuchman, Barbara - A Torre do Orgulho (1966).

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